sexta-feira, julho 01, 2016

Afinal não

Afinal o Roundup vai continuar à venda.
Por mais 18 meses.
Pelo menos.
Para já.

Não importa a desculpa.
Será sempre esfarrapada.

sexta-feira, junho 24, 2016

ÚLTIMA HORA!

A votação na Comissão Europeia para o prolongamento da licença do uso do Roundup foi hoje e os Estados-membros não chegaram a acordo. Pelo que, em princípio, o famoso herbicida deverá ser retirado dos mercados até ao final deste ano.

Vamos ver qual o "presente" do 4 de Julho...
Ler mais aqui.

quarta-feira, abril 27, 2016

"A Rua - Espaço, Tempo, Sociabilidade"

Título: A Rua - Espaço, Tempo, Sociabilidade
Organizadores: Graça Índias Cordeiro e Frédéric Vidal
Edição: 2008
Editora: Livros Horizonte
ISBN: 9789722416085
Paginação: 172 páginas


Tinha este livro há anos na prateleira...

Oscilando entre a sociologia, o urbanismo, a história e a antropologia, trata-se de um conjunto de textos (a maioria, resumos de teses) que procuram perceber como é que a rua (conceito, palco de eventos, conjugação de vontades, objecto estruturador do urbanismo...) acaba por influenciar a vida dos citadinos.
Isto inclui a forma como a vivemos, convivemos e como sentimos e idealizamos o que vemos através dela, como criamos laços com os outros e com os espaços à nossa volta entre outras implicações.

Alguns textos são bem pertinentes, problematizando concepções e questionando os valores que estão por trás delas e dos actores-autores políticos. 

No primeiro, "O «Acampamento», a Cidade e o Começo da Política", Michel Agier dá-nos o exemplo dos acampamentos de refugiados, traçados ortogonalmente (é uma regra?) e colocados, como pára-quedas, no meio de nada (como as lixeiras, que não queremos nem ver...):

Actualmente, coloca-se questão de pensar o lugar como espaço considerado como "liminar, entre-dois, provisórios, transitórios, incertos, intermediários, associados a circulações" necessárias ou forçadas. "Estes espaços formam-se, então, como etapas nessas circulações, ou como refúgios (...).
Que espaços são esses? São de vários tipos: de acampamento de trabalhadores itinerantes, precários; centros de trânsito para agrupamentos de longa duração de estrangeiros com pedidos de asilo; hotéis que são prisões ao mesmo tempo e campos de detenção para imigrantes que esperam regularização ou expulsão perto dos portos ou dos aeroportos; prédios abandonados; antigos espaços industriais abandonados; ruínas vazias que são invadidas; terrenos de acampamento que são ocupados por pessoas que se instalam na periferia das cidades e cujos espaços vazios de acampamento podem ser lugares de moradia duradoura; campos de refugiados; aldeias de refugiados ou sítios em geral das organizações humanitárias, ou do ACNUR, por exemplo, onde as pessoas vivem sob a assistência e controlo humanitário e das organizações internacionais. (...)
Eu tenho pesquisado durante 20 anos em lugares que parece que não são cidades, são lugares de barracas, lugares de acampamentos, lugares onde há um mínimo de materialidade; às vezes não têm materialidade, e são as próprias pessoas que fazem essa materialidade, e ao mesmo tempo elas fazem as relações que vão com a materialidade. E então a gente encontra-se em zonas onde, de forma muito concreta, material, e de forma muito social, as pessoas fazem a cidade. São citadinos sem a cidade." (...)

Onde as pessoas são ajudadas mas também controladas, emergem líderes ou porta-vozes cujas capacidades e estatuto (cultural e educativo), fazem com que as Organizações não os reconheçam como representativos dos pobres refugiados. E eles emergem para reivindicar melhores condições materiais na cidade das tendas... Esta emergência de líderes é já, em si, o início de processo de criação de cidade e identidade, porque configura a convivência entre estranhos que compartem situações.

No segundo texto, "Vestígios de uma Modernidade Apagada: A Paris Popular da Primeira Metade do Século XIX", de Maurizio Gribaudi, o autor desmonta a ideia que perdurou e sobreviveu pelo tempo da Paris que então emergia: a cidade das luzes e dos boulevards.
Acontece, diz o autor, que os espaços esconsos, bairros sujos, mal-frequentados, com população pobre e doente, eram espaços de legibilidade difícil para a nova concepção de cidade (pós-haussmaniana, etc.) e cujos planeadores, políticos, arquitectos e estrategas não se preocupavam realmente em tentar compreender.
Gribaudi fez análise de uma dessas ruas e zonas e demonstra claramente que as funções e profissões que nele se encontram são, além de diversas e numerosas (pequenos artífices e fabricantes de tudo. Mas realmente de tudo, desde relojoeiros, a chapeiros, alfaiates, fabricantes de espelhos, torneiras, envernizadores, e até um médico, um dentista, um farmacêutico ervanário...), um substrato representativo das várias camadas sociais e que, criando uma verdadeira interdependência e organização de necessidades, são a "fábrica das traseiras", a "cloaca a céu aberto" que os habitantes das classes aristocratas e liberais dos boulevards precisam para manter os seus fatos e hábitos imaculados...

Já em "Ruas da Cidade e Sociabilidade Pública: Um Olhar a Partir de Lisboa", de Tim Sieber, temos um autêntico regalo.
Como antropólogo urbano estado-unidense que veio viver para Lisboa custava-lhe perceber a importância que a rua adquire para os povos mediterrânicos, uma vez que a tradição anglo-saxónica "instituiu" o conceito de rua como associado à marginalidade, à classe dos negros, os loosers, os vadios, os falhados e desenraizados, por oposição à classe-média, à gente "decente" que, "cuidando da família e com trabalho, não tem tempo para estar à porta de casa e andar metida em bares ou a deambular pelas ruas". E este conceito vigora e envenena outras formas de ver as relações dos urbanitas com a urbe.
O turista parece andar preocupado em admirar mais as fachadas, monumentos e arquitecturas do que contemplar, viver a rua e contactar com as pessoas que ali vivem. "Parece ser irrelevante quem são as pessoas e quem está na rua - desde que as ruas estejam apinhadas de gente."

O autor viveu largos anos por trás da Casa dos Bicos, na Rua Afonso de Albuquerque, "uma rua popular, de classe operária, com oito prédios, uma residencial de cinco andares que hospedava sobretudo imigrantes das ex-colónias em busca de uma vida melhor, bem como migrantes internos. A rua "Tem apenas 75 metros de comprimento e é bastante estreita..."
"Um dia em que regressei tarde a casa - aí por volta das 4 da manhã - apanhei os padeiros, os almeidas e os lavadores de rua todos em amena cavaqueira, em frente à padaria, cada um envergando o respectivo uniforme de trabalho. Tratava-se de um ajuntamento informal, de conversa espontânea, entre pessoas que nem sequer viviam na rua, sendo na sua maioria simples transeuntes nocturnos, visitantes de passagem. Passageiros do escuro que se apoderam momentaneamente  da rua, enquanto os residentes dormem despreocupados, ou até mesmo satisfeitos por estes trabalhadores aparecerem à noite, sem causar qualquer perturbação às rotinas diárias na vizinhança".

Depois fala como na Expo 98 não houve verdadeira representatividade da cultura portuguesa a exibir, tendo considerado, por exemplo, a música pimba e os desfiles das marchas de Lisboa como cultura menor. Por insistência, as associações de marchas impuseram a sua força e desfilaram na avenida central do espaço do Parque das Nações, mas à margem da programação. Isto é, se a rua nos está vedada, somos nós que fazemos uma nova.

Outros textos interessantes, um mais sobre arquitectura e como ela condiciona a convivência dos moradores, outro mais sobre o lugar da rua nas manifestações e encenações do Poder no século XIX português, outro ainda sobre as práticas religiosas colectivas num bairro perto da Bela Vista... fazem deste livro uma boa e interessante paragem para reflectirmos sobre a Geografia.

Boas leituras geográficas.

Envie a sua sugestão de leitura para
georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

segunda-feira, abril 18, 2016

quinta-feira, abril 07, 2016

O oportunismo dos "PRA"

"O Vale de Santo António, onde irão nascer centenas de habitações, será uma das maiores áreas de intervenção do programa", in publico.pt

Na sequência deste artigo no público...

É o momento certo para lançar este programa. As rendas em Lisboa estão elevadíssimas, o senhor Presidente da Câmara de Lisboa arranja um bom motivo para desbloquear e promover o seu investimento imobiliário...

Bota construção!
E depois falam em reabilitação e construção. Agora está na moda usar estes dois termos para falar de construção!
E a CMLisboa não foge a isto.
Do que vejo no infográfico, dos 15 projetos, 12 são para CONSTRUÇÃO e apenas 3 para REABILITAÇÃO.
E depois anda um Governo (o de Portugal? ou de Alguns...) a dizer que prioridade nesta área é a reabilitação (se é prioridade, o rácio deve ser invertido!)
Muda-se o discurso mantêm-se as políticas.
Estou mesmo a ver o Bairro das Laranjeiras, perto do Parque das Nações a rendas baixas para a classe média.
O que realmente acontecerá?
"Rendas baixas para a classe Alta, não é o mesmo que renda baixa para a classe média."

"Este programa dirige-se às verdadeiras classes médias"

Ainda estou para perceber o que são as verdadeiras classes médias? Aqueles que recebem 650€ mensais e pagam 400€ de renda são classe média para muitos...

"Dar-lhes oportunidades para que possam viver na cidade de Lisboa"

É este o objetivo principal?

Temos um presidente... "O salvador" ou será "O oportunista"?

Surge a oportunidade... logo é "O oportunista"...

Finalmente ele vai dar a mão a todos aqueles que querem viver em Lisboa.

Finalmente ele resolverá os problemas de Lisboa.
Pontes, viadutos e estações de metro Lisboa tem muitos e pelo que vejo a sua taxa de ocupação está aumentar.
Vamos lá acordar para a vida... deixem-se de papos!
É uma vergonha fazerem a vossa promoção imobiliária desta forma...

quarta-feira, abril 06, 2016

"E se fosse eu?", por Rogério Madeira

Tive conhecimento deste desafio #esefosseeu através da Associação dos Escoteiros de Portugal #esefosseeuaep e achei na hora um desafio interessante e com uma questão pertinente: “E se fosse eu?” Realmente só nos colocando no lugar dos outros, poderemos tentar responder a tal questão. E hoje, por vezes, tenho assistido a cada comentário infeliz de muitas pessoas que parecem que não conseguem colocar esta mesma questão: “E se fosse eu?” Em tempo de paz, muito dificilmente sentiremos e saberemos como será partir da nossa terra, por esta se encontrar em guerra, em total colapso.

Ter que partir e deixar tudo para trás, com apenas uma mochila?

Ao tentar pensar nisso, não cheguei a nenhuma conclusão a não ser pegar nas minhas duas mochilas que estão sempre prontas para mochilar, por motivos da minha vida pessoal atualmente.

Felizmente, a minha Terra ainda é o meu País e o meu País ainda é a minha Terra...


... e como tal percorro-o de Norte a Sul com regularidade. Fico em casa de família, de amigos, em hostels, na sede dos escoteiros, em parques de campismo e até em praias, em jardins, em pinhais, etc. Tudo em tempo de paz. Com conforto ou desconforto... tudo em tempo de paz! A minha cama e almofada começam a ser uns estranhos para mim. Sendo assim, se tivesse que partir iria provavelmente pegar nas minhas duas mochilas que se convertem numa, quando meto a pequena dentro da grande. A pequena está preparada para 24 horas. É uma mochila que está pronta para as minhas caminhadas e retiros de fim de semana, para me orientar pessoalmente e ao mesmo tempo para dar apoio à formação no Grupo 250 de Mafra.


Que contém (no sentido dos ponteiros do relógio):
  • Mochila com elásticos/mosquetões e com a minha identificação com grupo sanguíneo;
  • Marmita com talheres de campanha.
  • Enlatados e bolachas/barritas energéticas (normalmente tenho apenas 1 ou 2);
  • Telemóvel não iria na mochila, provavelmente no bolso, mas quando ficasse sem rede ou sem bateria iria para a mochila. Também não é fundamental numa situação de refugiado, mas hoje não consigo viver sem ele. Até consigo! Mas quando não o tenho, sinto falta...
  • Carteira com todos os meus documentos e algum dinheiro (tenho fotos da família e também selos postais, para quando quiser matar saudades e enviar notícias à família);
  • Relógio também não iria na mochila, iria no pulso;
  • Panamá. Sempre me acompanha quando prevejo uma jornada de caminhada.
  • Água (ando com água e quando termina serve sempre de recipiente para voltar e encher de água de uma fonte, torneira ou até ribeiro desde com água límpida);
  • Abafo. Serve para proteger o pescoço, boca e nariz do vento e frio. Para mim é útil;
  • Apito com conta passos. Poderá servir para muita coisa: Chamar atenção! Alertar perigo! Informar localização! E quem sabe arbitrar um jogo… :P
  • Caneta e bloco de apontamentos. Sempre andam comigo, para apontar tudo o que achar necessário e/ou partilhar info escrita com alguém;
  • Aspirinas. As que estão na foto eram 4, só foi usada uma porque dei ao meu pai. Podem ajudar-nos a nós próprios e aliviar a quem nos solicita ajuda.
  • Canivete multifunções tipo Suiço. Para tudo e mais alguma coisa.
  • Isqueiro. Para fazer fogo;
  • Produtos de higiene (normalmente apenas escova e pasta dentes pequena e papel higiénico);
  • kit 1.º socorros (que neste momento até está incompleto).

Caso soubesse que teria que partir por muito mais tempo, como é o caso que se verifica neste desafio. Levaria então também a mochila grande.


E esta contém:
  • Tenda. Não é importante, mas em tempo de chuva e frio, pode dar jeito;
  • Esteira de campismo. Coloquei na foto, mas nunca vai nas minhas viagens!
  • Saco-cama. Um bem quentinho é fundamental!
  • Camisola e roupa interior. Normalmente só levo uma muda. Quando tenho que mudar, lavo e vai a secar na mochila.
  • Toalha. Não é fundamental, mas serve como toalha de praia, de toalha de banho, de toalha de mesa, de saia, de cachecol, de chapéu/gorro viking e aconchegar um bébé, etc.



Esta seria a minha mochila!

Normalmente pesa até 10kg. Ficaria a faltar muita coisa... roupa, calçado e comida... Ficaria a faltar provavelmente objetos de valor sentimental e material... mas que não são importantes nestas situações...

Provavelmente esperaria que poderia contar com ajuda de outras pessoas... voluntárias e anónimas... que me dariam a mão... e eu em jeito de gratidão aceitaria sem hesitar...

Gostaria de enaltecer a organização deste desafio #esefosseeu, à Plataforma de Apoio aos Refugiados. Que pelo que vejo nos OCS e acompanho na internet têm feito um trabalho imenso/enorme, mesmo contra a hipocrisia que se ouve nas nossas praças e ruas. Têm sempre feito um papel de educação/sensibilização da nossa Comunidade. Um bem haja a todos vós. Força nisso! Sustentem sempre o Sustentável. À Associação dos Escoteiros de Portugal #esefosseuaep, por se ter associado a este projeto, muito bem. Sempre prontos! A nossa missão também é esta mesmo... Canhota!


terça-feira, março 15, 2016

"Escotismo para Rapazes", de Robert Baden-Powell


Escotismo para Rapazes
Scouting for Boys
Robert Baden-Powel [*]

Tradução: Rosário Morais da Silva
2.ª edição: Janeiro 2012
Editora: Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP)

Escotismo para Rapazes é um livro de fácil leitura que cativa o leitor a imaginar-se um zulu, um guerreiro, um sobrevivente, um batedor, um patrulheiro, um verdadeiro Escoteiro em vários ambientes reais, de cidade, de campo, de floresta. Durante a sua leitura:
- Sonhei que estava na Serra da Arrábida a seguir rasto de uma galinha d'água perdida...
- Sonhei que estava perdido em Lisboa, com mil pessoas apontar-me o dedo e a dizer "IH! Está perdido em Lisboa! Não se orienta no trânsito..."
- Recordei as aventuras no Algarve, com os manos e amigos, as partidas e a proteção que sempre existiu entre nós e entre todos...
- Recordei as vivências vividas no el camiño... turigrinos fabulosos que me fizeram crescer por tudo o que me contaram e que passei com eles...
- Recordei os tempos que estive a seguir o meu caminho nos Açores... a beber água em ribeiros, a analisar as condições meteorológicas e a observar as "Cagarras" com o seus voos rasantes... e o coração a bater forte de medo, de cansaço, de paixão por tudo o que contemplava...
- Sonhei, recordei, sonhei, recordei...
Este é um livro delicioso, apaixonante e muito geográfico, portanto...
Mesmo que não sejas Escoteiro, durante a sua leitura, perceberás o que estou a escrever. E nunca se sabe, se após a sua leitura, te tornarás num...


Podes ouvi-lo aqui.


Transcrevo parte da introdução da edição portuguesa, realizada por Nélson Raimundo:
"O Escotismo é hoje um movimento global e plural, que junta mais de 28 milhões de jovens e adultos, rapazes e raparigas, homens e mulheres, de todos os pontos do globo, sem descriminação religiosa, de género, socioculturais ou étnicas. O objetivo do Movimento Escotista é, desde a sua fundação, o de ajudar a construir um mundo melhor e para todos. Para isso o Escotismo aposta nos jovens e na sua formação, fazendo de cada Escoteiro uma força capaz de contribuir para transformar a sociedade e o mundo."

E finalizo com BP:
"...Pus neste livro tudo aquilo que precisam para serem bons Escoteiros. Por isso, vão em frente, leiam o livro, ponham em prática o que ele vos ensina e espero que se divirtam tanto ou mais do que eu enquanto Escoteiros.
" Baden-Powell of Gilwell

Boas leituras geográficas.

[*] Robert Stephenson Smyth Baden-Powell (Londres22 de Fevereiro de 1857 — Nyeri8 de Janeiro de 1941) foi um tenente-general do Exército Britânico, fundador do Escotismo.


Envie a sua sugestão de leitura para
georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

segunda-feira, março 14, 2016

FOTO DO MÊS: "Clipes Urbanos"


Foto de Rogério Madeira. Palmela, 21.02.2016.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Do they know it's... a Republic?

Um sonho estranho.
Emergiu talvez como água a brotar das fissuras da rocha, a qual pensamos impermeável.

Um jovem, de cara tapada, pintava num muro, a trincha, palavras de ordem contra a opressão.
Contexto inferível: estamos em ditadura, talvez franquista.
Por entre os carros que passam, algumas pessoas, paradas e outras que também passam, observam com olhar medonho. Algumas com olhar persecutório, prontinhas a apanhar o larápio.
Nada contra a Nação, talvez.
Mesmo que dela muitas haja.

Num outro tempo, mas no mesmo lugar, a mesma cena:
Um jovem, de cara tapada, a pintar num muro, a trincha, palavras de ordem contra a opressão.
Mas... outro tempo, agora: é que a ditadura foi deposta.
Não sei se anos da transição, ou pós.
Estamos em Espanha, e não sei porquê.
Mas por entre os carros que passam, algumas paradas e outras que também passam, observam com olhar medonho. Algumas com olhar persecutório, prontinhas a apanhar o larápio.

Este foi o sonho.
E acordei a perguntar-me: estas últimas não sabem que a ditadura foi vencida?

E questiono-me se as estruturas não podem, por vezes, ser, ao invés dos agentes da opressão, ser os garantes dos valores democráticos?

Que pode o regime ser republicano mas os governados serem fascistas.

E penso como, pela lassidão da tarefa de promover os seus valores, a democracia e o republicanismo deixam as pessoas resvalar para o simplismo, para a conversa de títulos de jornal, para a intolerância, a xenofobia e para as explicações e justificações de estarem assim ou terem que ser assim ou assado.

Pondo as coisas claras, é óbvio que a democracia, no seu estado são, contém, tem de conter, uma dose inquebrantável de intolerância: intolerância para com os valores que lhe são contrários e que a põem em causa. De acordo com tal tábua de valores se julgam os que sob ela coexistem.
Já não é tão óbvio que a democracia tenha de conter e usar da violência para aplicar tal intolerância, uma vez que a primeira, em primeiro lugar, a limita, e em segundo, lhe é contrária.

E assim chegamos aos que usam o sistema democrático para destruir, por dentro e em sede própria, a democracia. Legislando, por exemplo, no sentido de restringir o poder de decidir, instituir a outorgação, a empreitada, a nomeação directa. Legislando contrariamente à tendencialização da igualdade de oportunidades e da gratuitidade dos direitos e valores que enformam e definem o regime republicano e democrático: Paz, Alimentação, Saúde, Educação, Habitação, Mobilidade. A que acrescentamos o respeito pelas / e fomento da saúde ecológica, diversidade e riqueza culturais, geográficas (paisagísticas, biológicas e humanizadas).

Como a Justiça faz sentido é para os mais fracos: para que precisa o poder (económico, sobretudo) de ir a tribunal? Só se for para corroborar, numa credibilização social equiparável à sacrossanta ciência, o seu poder. Também no domínio da Justiça, onde supostamente os critérios económicos não devem ter interferência.

Estamos longe das querelas sobre as aritméticas e as virtualidades constitucionais da representação parlamentar do novo governo. Até porque esta é bem mais que aplicável, uma reflexão filosófica e conceptual.

Podem continuar os governados a pensar o contrário do que pensam aqueles que elegem, mas sempre haverá alguma coincidência nas ideias. Daí a importância, também aqui, da diversidade representada.
E é tudo uma questão de proporção. Dentro, uma vez mais, da representatividade possível ou vigente.


O remate desta dissertação é o de que numa República, a Assembleia e o Governo que governa DEVEM gerir as coisas públicas, a "res" "publica". Não a coisa privada, nem muito menos as coisas PARA os privados. Falamos aqui, em primeiro lugar, do que se pode constituir como materialização de poder económico.

Acaso saberão eles que isto é uma República?

O postulado inerente a todo este raciocínio é o seguinte:
Se a República promover e souber fazer valer os seus valores, através da forma como funciona, atingindo os valores que defende, as pessoas governadas tenderão a respeitá-la / -los e, a promovê-la/-los e defendê-la.
E, ao contrário,
Se a República for minada, se mediante instituições e legislação se tender a contrariar os seus valores, as pessoas governadas tenderão a afastar-se dela. Por exemplo, deixando de acreditar nela, deixando de participar. Quando dermos por isso já nos transformámos em fascistas.

Acaso saberemos nós que vivemos numa República?
Se não nos sentimos bem nela, não somos nós que temos de nos mudar, mas sim temos de mudar o regime.
Agora, vivendo num tal regime, ou é ele que vai moldar-nos para que o respeitemos e fomentemos, ou vamos fazendo os possíveis para o minar.
Às vezes basta não tomar posição.
Isso (não tomar posição incluído) define a nossa posição, os nossos valores, e, em princípio, clara e obviamente, se somos fascistas ou democráticos sãos.






quarta-feira, setembro 02, 2015

Visões de génio

Planeamento Urbano 
O que aconteceu à Praça?

Os entraves à comunicação são formados não só por edifícios ou partes de edifícios. O próprio desenho duma cidade pode impedir a comunicação e a comunidade. Tomemos a esquina nas sequências do encontro no filme "O Eclipse". Um romance ou filme tradicional poria Vittoria e Piero a encontrarem-se num café romântico. Então porquê esta esquina anónima do EUR? A pálida intersecção não é um mero cenário. Conforma uma ideia geral. Não é só o espaço onde o par de namorados falta ao encontro mas o culpado disso. Exemplifica, ocasional e comprovadamente, a incapacidade geral de a cidade moderna proporcionar encontros.

O que divide passa de um bloco de betão (na Bolsa; nos valores que separam visões do mundo de cada personagem) para uma barra de metal. Um quase oculta a pessoa, o outro mantém a separação, quase união, mas infranqueável.

Quão distinto é um cruzamento rodoviário de uma praça, o tradicional lugar de encontro dos amantes! A intersecção evoca o que é mais transitório, casual e efémero na nossa sociedade: meros contactos, não encontros programados, entre actuais agitados como Piero, que vive na margem das coisas. A arte de marcar encontros em lugares convenientes perdeu-se para a geração apressada, com os seus carros desportivos e a sua superficial abordagem da vida. Noutros tempos, a solução arquitectónica comum para o problema do cruzamento de ruas era a praça - a piazza (Platz, Plaza, do Latim platea, rua larga) -, o locus classicus da comunidade, onde os negócios do dia dão organicamente lugar à socialização da noite. Na Roma de tantos espaços e lugares esperávamos uma alternativa mais interessante àquela pálida esquina. Nas partes antigas, mesmo o bairro mais pobre tem a sua praça e fonte ou, pelo menos, a sua torneira.


Mas no quarteirão do EUR, nenhum consolo desses foi planeado. Uma tradição vital ficou esquecida na amnésia geral do modernismo. As personagens, em particular Piero, precisam desesperadamente de um alívio estético (mesmo se ele provavelmente pense que do único que precisa é alívio sexual). O seu trabalho é cansativo e stressante, ele toma comprimidos e atende logo as chamadas de gente que nem se identifica. Curiosamente, o seu lugar de trabalho, a Bolsa, dá para uma das mais bonitas praças de Roma, a Piazza di Pietra. Mas o lugar tornou-se tão povoado e preenchido por carros que a socialização, embora intensa, é uma anedota do contacto inspirador que o grande arquitecto romano pretendera.

Um dos objectivos de filmar as personagens de costas é dar-nos a mesma perspectiva destes, amplificando o terceiro elemento. No caso, a passadeira.

A ideia original de Antonioni era filmar a sequência do encontro de Vittoria e Piero numa pequena e moderna praça do EUR. Mas o que acabou por ser filmado foi a intersecção marcada pelas faixas da passadeira. Piero diz que vai beijar Vittoria quando eles chegarem ao outro lado da rua. Entretanto, Vittoria pára e diz enfaticamente:
- Estamos a meio.

A decisão de Antonioni de mudar o sítio de uma praça (não importa quão pobre) para um mero cruzamento traduz claramente a sensação de que este está ainda mais abandonado. Na era dos carros desportivos, as pessoas passam por amantes como água na areia da praia. O começo de uma relação amorosa (a própria expressão denota já uma banalidade já pensada) vai já a meio, e o fim está já à vista. Não precisamos que nos mostrem como as coisas acabam. Como os corpos celestes (e o título do filme é indicativo), os amantes modernos convergem apenas durante um breve instante, já que seguem a grande velocidade e em direcções opostas.


Porquê esta esquina suburbana tão indistinta e indistinguível de milhares de outras? O que a rodeia é tão amorfo que dificilmente se pode constituir como lugar. A livre praça europeia, de Danzig a Lisboa possui propriedades visuais que não temos num cruzamento rodoviário. Por uma razão, o espaço da praça é autónomo, sui generis. Não é apenas a ausência de algo. Nem tampouco o que sobra se retirarmos os prédios à sua volta. Ele deve ser planeada, e a sua existência depende dos limites das estruturas que se impõem e lhe dão personalidade. Mas a intersecção do "Eclipse" não tem tal personalidade. É um vazio, não um espaço desejado. Os edifícios que estão à volta não têm alma. Num canto está um muro baixo entre casas indiferentes e a rua. 

Noutro estão alguns prédios de quatro andares ao acaso. Num terceiro encontramos um complexo desportivo, ilegível pelas imagens ao nível da rua. O quarto canto está dominado por prédios em construção ainda sem forma. Não só estas estruturas estão por evidenciar, como as suas relações espaciais com a passadeira estão demasiado distantes e vagas para as percebermos melhor. 

Não, a esquina não pode ser considerada como espaço humano relevante. Não tem fechamento: 
"Linhas-fronteira não servem para encerrar a praça: terminam nos cantos, mas a sua força impele-nos a continuar, não a parar", especialmente quando essas linhas direitas estão ao serviço do automóvel. O piso partilhado pelas duas ruas não foi feito para o pé humano. Demorar-se torna-se crime, uma obstrução ao trânsito. Ao contrário da calçada da praça, o asfalto não constitui um "terreno" paralelo ao céu. O cruzamento é tão-só um produto mecanizado, o mais simples e mais barato e a solução menos humana para o problema da circulação automóvel. Traduz a necessidade de carros, não de pessoas. Em vez de deambulantes, tornaram-se peões, meros piões no jogo do xadrez automóvel. O caso de Vittoria e Piero está em certo sentido condenado só pelo facto de terem marcado um encontro para ali. Não é um ponto de encontro ou de detenção, só serve para seguir rumos diversos.

Os peões que atravessam cruzamentos estão sempre na periferia, nunca no centro. Alheios ao lugar, precisam de marcas especiais - uma passagio zebrato, em italiano - postas paralelas à curva como grandes parêntesis a indicar-lhes por onde é seguro passar. Estas marcas estranhas sugerem que o peão é uma espécie em extinção (lembremo-nos das peles de zebra no apartamento de Marta e das fotos das zebras no "Deserto Vermelho"). As ruas são o habitat natural dos carros; agora são as pessoas que têm de ser conduzidas por entre eles. Estamos tão habituados à autoridade dos carros que competimos sem pestanejar por essas marcas brancas. As passadeiras quedam-se num dinamismo rígido e absurdo. Compelem-nos a avançar. Se as tomássemos à letra, ficaríamos a andar sempre pra lá e pra cá. A sua única função é levar-nos para outra coisa - mesmo que essa outra coisa não tenha sentido nem objectivo.

A intersecção da passadeira não é um espaço próprio. O seu apelo é mecânico, mera fórmula. Como o arranha-céus espelhado, reflecte, num pleonasmo perfeito, apenas a sua função, que é a de atravessar. É uma verdadeira agonia do funcionalismo. A função arquitectónica adquire significado apenas quando joga com o sentido humano. E é precisamente isto que aqui está em questão. Que sentido podem ter vidas humanas reguladas desta forma? As faixas são o emblema da vida agitada de Piero, impulsivamente de um lado para outro, de cliente para corrector, de mulher para mulher. Talvez Vittoria não o deixe beijá-la quando chegarem ao outro lado por reconhecer estes traços.

Não teria aprofundado tanto esta esquina se a câmara de Antonioni não lhe tivesse feito caso. As elevações da câmara, por exemplo, não são inocentes. Quando acompanha a história do caso dos amantes, a câmara sobe de nível com eles, mais ou menos a reboque do enredo. Mas após o desaparecimento do par, a câmara sobe ainda mais, para um ângulo mais objectivo, a perspectiva da indagação científica. Com a perda dos protagonistas, a intersecção muda do objecto para o assunto. A nova narrativa, que termina o filme, é um documentário não-ficcionado. A protagonista é a intersecção. A técnica tinha sido aludida já na cena da vila fantasma [um conjunto de habitações idealizadas pelo regime fascista para alojar trabalhadores mas que nunca chegaram a ser habitadas] na Sicília de "A Aventura". Nele, o par deixa a vila para trás. Neste caso, é o subúrbio que deixa o par para trás. 

Se o objectivo de Antonioni tivesse sido apenas o de mostrar a separação dos amantes, ele teria filmado Vittoria ou Piero a voltar àquela esquina em solitário. O pano de fundo seria na mesma um pano de fundo, nem ser notado por estar igual. Mas com o desaparecimento de ambos, Antonioni releva aquela intersecção banal, fá-nos contemplá-la com tamanha intensidade que sentimos, mesmo sem compreendermos muito bem, a ameaçadora relação entre o tédio urbano e a procura da auto-destruição global. A intersecção do EUR torna-se o presságio da catástrofe. A banalidade do candeeiro de rua transforma-se num ícone como aqueloutra, extrema, do botão vermelho que desencadeia a guerra atómica. Antonioni consegue este efeito espantoso precisamente ao frustrar as expectativas convencionais de um desfecho, transformando o tédio do normal Devir no horror do Fim. 


"L'Avventura" e "La Notte" conduzem-nos a pensarmos as personagens com um conjunto de ansiedades modernas, maioritariamente eróticas, e depois redirecciona a nossa atenção para o aspecto das coisas, especialmente do ponto de vista da arquitectura. Mas em "L'Eclisse", Antonioni vai muito mais longe, para lá da mera aparência. O forte luz do candeeiro e o alto volume da música na cena final são difíceis de aguentar. Nenhum outro filme deixou nos espectadores a perguntar-se "É só isto?", "É só isto que fica de um caso de amor?", "Do nosso destino comum?", "Da nossa civilização?", "Da própria terra?"


Excerto de "Antonioni or, The Surface of The World", de Seymour Chatman, 1985, University of California Press, pp. 108-112
Tradução de Edward Soja.

Houve quem tenha lá ido mais recentemente, ver como a coisa estava.

quarta-feira, agosto 26, 2015

Maravilhar-se, por Rachel Carson

Título: Maravilhar-se - Reaproximar a Criança da Natureza
Edição Original: The Sense of Wonder (1956)
Autor: Rachel Carson
Tradução: J. C. Costa Marques
Edição: Novembro de 2012
Editora: Campo Aberto / Edições Sempre-em-Pé
ISBN: 9789728870362
Paginação: 104 páginas

Esta é uma co-edição da associação de defesa do ambiente Campo Aberto e das Edições Sempre-em-Pé e, para além daquele belo texto de Rachel Carson, contém fotos ilustrativas, uma análise da actualidade do legado e uma pequena biografia sobre a escritora bióloga estadunidense. O que, face à extrema dificuldade de encontrar o seu seminal "Primavera Silenciosa" - sim, houve uma edição por cá, na editora Pórtico, em 1964 - constitui um acrescento valioso, face à singeleza e pequenez do texto originalmente publicado num jornal.

Inspirada pelo seu sobrinho-neto, com quem passava os dias a descobrir a natureza em torno do local onde morava, no Maine (costa este, junto ao Canadá), descreve as razões e as maneiras do porquê empreender tal tarefa, pedagógica, se assim podemos dizer.

Em primeiro, trata-se de redescobrir - mesmo que em tenras idades - os sentidos, exercitando-os com detenção e paixão. Isto implica arrancar da anestesia geral o sentido do olfacto, reaprender a escutar atentamente para discernir os pequenos sons do espaço à nossa volta. A visão será talvez aquele, hegemónico, que a sociedade do espectáculo nos ensina a usar mais vezes. O que não quer dizer usar necessariamente bem. A cada realidade suas necessidades.

Em segundo lugar, e o mais importante doravante, não será tanto inundar-nos de informações ligadas àquilo que vemos, ouvimos e cheiramos, mas sim respeitar, junto dos seres vivos (fauna e flora) e dos restantes elementos da natureza, os ritmos da contemplação e da fruição. O mistério e o descobrimento serão os pêndulos donde nascerá a paixão e o sentimento que, estes sim, ficam gravados desde cedo e não cessarão de dar frutos pelo futuro.
No futuro, então, sim, os nomes e a compreensão, científica ou de senso comum, que ligamos àquilo que presenciamos e vivemos ajudarão a completar o gosto e o respeito pela natureza.


Numa análise crítica - sendo uma auto-crítica, antes de mais - devemos dizer que este ensinamento ficará cerceado se não pudermos conviver com a natureza. Ela está por todo o lado, argumenta Rachel Carson: nos jardins, no vento, nas estrelas, na chuva, nos pequenos animais.
Sendo isto certo e ela passível de fruição, todos conhecemos quantos obstáculos o homem citadino que maioritariamente somos sentiu necessidade de criar para assim - diz, sussurrando - se sentir mais seguro: dentro de paredes (casa, supermercado, centro comercial genericamente falando, que só parecemos saber consumir...) não chove, impedimos o vento de nos bater na cara e à chuva de nos molhar; as luzes que iluminam as cidades poluem a escuridão do universo estelar e impedem-nos de vislumbrar as bolas de fogo.
Resta pouco, sóis e luas para os que não inventámos ainda fuga eficaz.

Ah, também há admiráveis mundos novos que nos transformam em robôs (é para isso que serve o trabalho, que em várias línguas eslavas é o que quer dizer) e em pessoas desprovidas de sentimento. O que é a ocultação da morte senão uma tentativa de anestesia mental e psicossomática profunda? Vai na mesma linha da destruição do que é ser-se Homem. Começa por coagir e limitar as manifestações animais que há em nós. A ver se nos "civilizam" por inteiro...

E, como capitel, a rarefacção do silêncio impede-nos da intimidade connosco mesmos. Mesmo se tiveres tempo, a ausência do silêncio manter-te-á distraído de ti mesmo até ao fim dos teus tempos.

A desumanização que a nossa domesticação proporcionou ao Homem (os animais e as plantas não no-lo pediram, mas também não interessa...) deveria dar lugar a uma selvajaria que não se sentisse tão bem com as sombras dos cemitérios do cimento.

Já seria um começo de algo diferente.


Terminámos com duas últimas notas, imprescindíveis a pretexto: 

- os tóxicos bioacumuláveis que "semeamos" com os pesticidas lembram-nos que a única dose segura é a dose zero. Pois - se é necessário explicá-lo - ao longo da cadeia alimentar, se eles não são elimináveis... é uma questão de tempo. As bombas relógio das doenças inexplicáveis como o cancro já têm explodido há alguns anos, mas isso é porque as bombas, essas, começámos a produzi-las há muito mais tempo atrás. É disto que fala o livro Primavera Silenciosa, das primaveras em que não haverá pássaros.
E numa sociedade sacarínea, sacana e gordurosa (é nos tecidos gordos que se acumulam os metais pesados) é por aí que continuamos a trilhar o rastro de destruição.
Ah, como nota ou curiosidade para os mais distraídos, refira-se que um dos grandes produtores de pesticidas é também um dos papás-papões dos transgénicos. Sim, a fantástica, tentacular e calcinante Monsanto.
- Rachel Carson viu também o que amiúde esquecemos, de tão óbvio:
"As criaturas selvagens, como os seres humanos, precisam de um lugar para viver. À medida que a civilização cria cidades, constrói estradas e seca pântanos, ela ocupa, pouco a pouco, a terra favorável à vida selvagem. E à medida que diminui os seus espaços de vida, as próprias populações da vida selvagem declinam."

E isto já foi dito há muito tempo...

sexta-feira, agosto 14, 2015

Dentro e fora, dentro e fora

"Era todo o dia
Sempre dentro e fora
E o Conan dizia 
- "Crise.. Qual crise?""

"Conan, o Homem-Rã", Irmãos Catita

Qualquer velha questão começa com antinomias.
O homem questiona sobre as coisas até questionar a sua rês, aquilo que é, como é e porque é que é.

Fora da sua cabeça as diferenças existem.
Só dentro da sua cabeça elas podem ser apreendidas como luz ou breu, caloroso ou frialdade, dentro e fora e por aí fora.

Os aguadeiros pertencem à profissão de um tempo em que as casas eram desprovidas de instalações de água canalizada.
Os namoros e as pedrinhas nos cântaros que obrigavam as moçoilas a voltar à fonte, descalças e não seguras, para os reencherem.
- Vai prà fila, sua megera! - podiam dizer. 
Mas onde, a compra e a venda?
Da água pública, da água ali, à mão de todos para a maré cheia...


Tenho um amigo cuja casa terá um espaço útil (belo conceito moderno) será pouco maior que a sala do tecto em que me vou abrigando.
Um casebre não é um tugúrio.
"A louse is not a home", né, Pedro?
Mas, cabe perguntar?

Seríamos assim tão pobres?
Seremos assim tão ricos?

Porque seria um espaço tão pequeno suficiente...
(O homem habitua-se a tudo, mesmo que o hábito possa fazer o monstro)
... para viver / sobreviver / ter sobrevivido até hoje?

E porque parece hoje ter deixado de ser suficiente?


Gosto das casas com a porta aberta. Com porta, mas aberta.
Em que a rua e o interior se interpenetra.
E clamam que isso é que é pornográfico, nos tempos que correm.
Ninguém os mandou correr...

Ah, mas uma grande casa, carro à porta, jardim, quiçá piscina, um cão a ladrar a quem queira meter o bedelho para cá do muro, um ladrão a infalivelmente mandar o seu cãozar para o lado de lá do muro.

A separação.
A separação que nos rasga o corpo e alma, vivências, paixões e memórias e as erode para longe, até onde nos faça menos dano.
A separação.

Dentro e fora.

O espaço pequeno, comido, sob formas antigas de edificação, desapropriado para os moldes da desconstrução urbana vigente. Apropriado.

Propriedade somada.

Resultado:
Mais dentro e menos fora.
Pornografia espacial no comboio descendente e excitante mais das terminações nervosas que da base, cerebral.

Imagem e o seu efeito nefasto e implacável, estatuto para quem o suga dos seus adoradores-por-isso-súbditos, poder, ostentação, riqueza, ambição, a distinção
...

a distinção assenta muito bem para engavetar cada um no seu devido compartimento, para que cada um, isolado no seus altares imaginários, não repare que todos vivemos em caixotes betonizados de que alguém se vai aproveitando...

competição... privacidade.
(Dentro e fora)

- Não, não! Alto lá, privacidade é um direito.
Consagrado na constituição consentânea com o parasita vira-casacas do capital. 
Faz parte da liberdade, a privacidade.

Cremos que a privacidade não se teria tornado, não a teríamos tornado, num valor tão extremo, tão democrático, portanto, se o terrorismo da voragem do espaço tivesse conhecido obstáculos e valores que não se comprassem.

Mas quem não tem privacidade, então, ó tu que tanto gostas do racionalismo lógico, concluo que não é livre.
- Exacto, é correcto.
- Ai sim? Então quero:

a) que me devolvas o tecto que pagaste para demolir,
b) que me ressarças do silêncio de que me tens privado quando sais à minha rua,
c) que não ter de comprar direitos, incluindo esse.

E quero muito mais coisas, agora.
Quero o mundo de que tenho sido espoliado, não quero que me dês, nem muito menos que me vendas mais, o teu mundo que me espolia.

Passámos a ter a água dentro, à nossa mão.
Passámos a viver dentro, entre muros fechados, porque o espaço exterior tem vindo a ser comprado, degradado, apropriado, traído e subtraído reduzido, pois claro. 

Nas ruas esconsas e que os privados deixaram para a "liberdade" dos planos urbanísticos, quais relvados atrás dos blocos de apartamentos e sob linhas de alta tensão, vão passando os deserdados, os humilhados e ofendidos do mundo que já não é deles, que já não é nosso. Foi vendido aos "livres" do mundo livre, o mundo capitalista. Não há outro, sussurrantemente nos apregoam por todos filmes, publicidades, musiquinhas da treta nas rádios da treta, nos intervalos imensos dos telejornais esguios.

 Dizemos tudos juntos
Pim, pam, pum,
que cada nota pra cá
mata muitos.
Lá.


O paradigma mudou com a colonização imperialista, expansionista do capital.
Quando passámos a fazer cada vez mais coisas com o fito no guito, mesmo as colectivas, que das egoístas já se perderam as palavras.
Algo mudou:

--- Por fora, na forma como vivemos - mais dentro que fora (futebol de rua é brincadeira de crianças. Vejam o espaço de que precisam para fazer um estádio de futebol - símbolo moderno do poder disfarçado de apenas entretenimento). 
Com medo do outro, que está fora de nós, que não somos nós, que estamos sós.

--- Por dentro, na forma de pensar, que estamos menos solidários, menos activos, menos interventivos, menos curiosos, menos reflexivos, menos atentos (ao que se passa fora de nós, que estamos demasiado preocupados a tentar compreender as nossas histerias e psicoses - sinal do isolamento e da fragmentação do indivíduo social). 
Com medo de nós, na vertigem auto-enganadora dos telemóveis no vai-vem da mão para o bolso de trás, a pensar que quebramos o isolamento com uma comunicação depauperada e de cará-cá-cá; que estamos fora de nós.

Que somos nós?

Estamos sós.
Por dentro e por fora.

 Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando o sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colchões errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa

"A Canção de Lisboa", Jorge Palma

terça-feira, março 31, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (3/3)


Nós aprendemos a violência destruidora das guerras modernas e dos actos de negócio. Ignoramos que no espaço de algumas décadas a espécie humana chegará, pela sua própria prática conservatória, a conseguir as destruições que teriam em tempos exigido séculos.” (p. 247)


 


E, uma vez mais, paradoxalmente mas com causas identificáveis, o culto do património arquitectónico resulta em degradação e, acima de tudo, esvaziamento de sentido:


O condicionamento sofrido pelo património urbano histórico tendo em vista o seu consumo cultural, bem como a sua disputa pelo mercado imobiliário de prestígio, tende a excluir dele as populações locais ou não privilegiadas e, com elas, as suas actividades tradicionais e modestamente quotidianas.” (p. 241)


Nisto se antevê uma consequência, e que já identificáramos aqui no Georden: 


Os termos cidade, urbano (substantivo e adjectivo) e urbanismo perderam o seu sentido original. Quaisquer que sejam as nostalgias de uns e os álibis de outros, entrámos na «era pós-cidades». A urbanização propaga-se de acordo com as linhas de força traçadas pelas redes de grandes equipamentos. Melhor do que a rurbanização, inventada nos anos setenta para definir a metamorfose da paisagem rural, o termo italiano periferização faz compreender a dinâmica do processo que tende actualmente a desfigurar as cidades e a uniformizar os territórios.” (p. 250)


À medida que o livro se aproxima da conclusão é que ele se torna mais interessante: por um lado, as cidades comunicacionais, são fluidas e reticulares – tal é o imperativo maior em vigor, o económico. A rapidez, a facilidade, a acessibilidade. Dito por outras palavras, a imaterialidade e o desenraizamento, a falta de espaços de pausa, reflexão e diferença são a nova linguagem que emerge e fala nesta nova pobre paisagem urbana, cada vez mais desumana, cada vez mais robótica, binária, desrealizante.


As próteses que nos libertam do domínio local, resgatam-nos simultaneamente da duração para nos instalar na instantaneidade. O tempo orgânico da recordação, do cálculo, do questionar, da espera, da aproximação e do rodeio é recusado. Como também, de outra forma, o tempo cósmico das estações é escarnecido pelo avião dos transportes aéreos, que salta de um hemisfério terrestre para outro, quer se trate de despejar fluxos de turistas em praias ou fluxos de legumes em mercados.” (p. 255)


Como factores desta “liquidez”, as próteses da comunicação descorporizam a nossa relação com o local, tornado assim crescentemente indistinguível de um outro. Uma fábrica de não-lugares e de periferias cada vez maiores e sem centro algum. É essa familiaridade internacionalista que as grandes cadeias adoptam nos seus aspectos, ambientes e apresentação, para que ninguém estranhe e todos se sintam em casa, jamais tendo de recomeçar a estabelecer novas relações com o local. O que sucede, então, é o progressivo afastamento de todos os lugares por parte de quem tem de os usar. E, como canta Raimon, “quem perde as origens, perde identidade.”


O funcionamento em rede e seus fluxos (fluidos, energias, transportes, informação) permite a libertação dos ancestrais constrangimentos espaciais (geológicos, geográficos, topográficos…) que determinavam a localização, a implantação e a forma dos estabelecimentos humanos. Ao promoverem um espaço isótropo, eles [as redes e os fluxos] tanto uma urbanização difusa e a rurbanização, como a formação de áreas metropolitanas indistintas, aglomerações densas, de periferias concêntricas.


Os edifícios e monumentos alvo do nosso culto perdem assim relação de contexto. Vejam o Blow Up (1967), do Antonioni, que, como grande filósofo do olhar, já levantava essa questão. Deixaram eles de portar ou transmitir, espelhar, qualquer ideia de relação e memória. Já pouco podem dizer-nos sobre nós próprios e a nossa história. 

Todos os “testemunhos de um passado recente sempre mais próximo foram integrados”, indistintamente, “no corpo patrimonial. Edifícios-manifesto do movimento modernista (…), realizações espectaculares da engenharia de construção, até aos falhanços da habitação social… estão associados e assimilados aos monumentos e aos tecidos históricos, confundidos com eles. Esta amálgama de objectos ligados a práticas e a lógicas diferentes, e cuja heterogeneidade é camuflada sob a denominação comum e falaciosa de património, dá-nos de nós próprios, sob o aspecto das nossas realizações edificadas, uma imagem global, una e inteira, que oculta a fractura provocada pela mutação em curso e lhe conjura o trauma pela afirmação de uma identidade intacta. (p. 258)


Significa isto que quanto mais destruímos as singularidades, mais nos agarramos à tábua de salvação do passado, que – pensamos – já não muda. Mas que vai perdendo o sentido. As primeiras grandes destruições foram as trazidas pela revolução industrial e as guerras. As modernas destruições são mais subtis, conceptuais, mas nem por isso desprovidas da sua relação com o espaço físico:


Quando não construímos mais tais monumentos [os que são fundados mais na beleza que na funcionalidade] e quando abandonamos os modos articulados tradicionais de edificar, somos confrontados com a perda de poder sobre o tempo orgânico, que esses artefactos nos entregavam por via da mediação do nosso corpo. Esse poder, essa visão ancestral com a duração, é desde então objecto de um desejo feroz e insaciável, vivido como ausência e como falta. Essa ausência e essa falta são intoleráveis e o património pré-industrial designaria a chave perdida, cuja imago patrimonial serviria simbolicamente para combater o vazio.” (p. 261)


À oposição entre construir articulado e contextualizado e construção reticulada das redes técnicas, corresponde a oposição entre as línguas tradicionais da diferença e a língua dos técnicos (…). Assim, a supressão em curso dessa dimensão antropológica que é a competência de edificar é, sem dúvida, o acontecimento traumático de que a cultura do património nos serve para conjurar e ocultar.


Em jeito de conclusão optimista, postulamos que talvez nos reste a hipótese de numa tal homogeneização perdermos por completo o passado e a falácia do culto do património que ajudou a que chegássemos a este sem-sentido. Um bico-de-obra, criar memória a partir do vazio…